O que descobri pesquisando sobre 'suco em pó' e a marca Tang no Google

Análise profunda de dados de busca e pesquisa com consumidores sobre suco em pó e Tang no Brasil: dados do Google Ads, SERP e percepção de marca.

Vinicius Oliveira
@viniciuscodes Product Owner e Criador de Conteúdo

Há um tempo resolvi investigar como as pessoas realmente pesquisam, compram e pensam sobre suco em pó no Brasil - em especial sobre a marca mais lembrada dessa categoria, o Tang. Não fiz isso por curiosidade solta: queria entender de verdade a diferença entre o que uma marca acredita que o consumidor pensa e o que os dados de busca e uma pesquisa direta com pessoas reais mostram.

Cruzei três fontes para não depender de achismo: o volume médio de buscas mensais no Keyword Planner do Google Ads (considerando um período de 12 meses), os prints da página de resultados do Google (SERP) para os termos mais relevantes, e um formulário que enviei para uma amostra de pessoas - com e sem filhos - para validar hipóteses de comportamento. O resultado surpreendeu bastante, e resolvi compilar tudo aqui, com números, tabelas e gráficos, porque acho que vale a pena entender como funciona o “funil invisível” de busca em torno de um produto tão comum quanto o suco em pó.


O que aparece quando você pesquisa “suco em pó”

A primeira coisa que fiz foi simplesmente digitar “suco em pó” no Google e analisar o que aparecia na primeira página de resultados. O que encontrei foi revelador: nenhuma marca - nem o Tang, nem qualquer concorrente direto - aparece organicamente para esse termo genérico.

Em vez disso, a página de resultados se divide em quatro blocos bem distintos:

  • Sites de e-commerce (Americanas, Carrefour, Mercado Livre, Tenda Atacado) vendendo o produto.
  • Um conteúdo de um portal de saúde e bem-estar falando sobre os possíveis malefícios do consumo.
  • Blogs de receitas ensinando a usar o suco em pó em doces e sobremesas.
  • A caixa “As pessoas também perguntam”, cheia de dúvidas relacionadas ao produto.

Isso me mostrou algo importante: quando a busca é genérica, a marca simplesmente não está lá. Espaço que sites de conteúdo, blogs de receita e portais de saúde ocupam sem concorrência de quem fabrica o produto. Ou seja, existe uma lacuna enorme de conteúdo institucional que hoje é preenchida por terceiros - e não necessariamente com informação favorável à categoria.


A pesquisa que fiz com consumidores reais

Para não ficar só nos números de busca, criei um formulário e enviei para uma base variada de pessoas - com e sem filhos - durante um período de poucos dias. Recebi 25 respostas, e uma das primeiras perguntas foi simples: qual a primeira marca que vem à cabeça quando o assunto é suco em pó?

O resultado confirmou algo que os dados de busca já sugeriam: o Tang é a marca mais lembrada espontaneamente na categoria, muito mais do que o termo genérico “suco em pó”. Isso é o que se chama de “top of mind” - a marca virou praticamente sinônimo do produto, parecido com o que aconteceu com “Bombril” para esponja de aço ou “Danone” para iogurte.

Mas a lembrança de marca não significa consumo frequente. Ao filtrar apenas as pessoas que citaram o Tang espontaneamente (18 das 25 respostas), o quadro de hábito de consumo ficou assim:

Comportamento de consumo Nº de pessoas % do grupo
Não consomem o produto 10 56%
Consomem “de vez em quando” 6 33%
Não consomem, mas compram para a família 1 6%
Consomem com frequência 1 6%
Gráfico de pizza com a distribuição de hábito de consumo entre quem citou Tang espontaneamente
Distribuição de hábito de consumo entre as 18 pessoas que citaram o Tang espontaneamente.

O dado que mais me chamou atenção veio na sequência: dessas mesmas 18 pessoas, apenas uma disse acreditar que o suco contribui para o crescimento do filho - e, curiosamente, não foi a pessoa que consome o produto com frequência. Ou seja, existe lembrança forte de marca, mas quase nenhuma crença em benefício nutricional. As pessoas compram (quando compram) por outro motivo, que ficou claro na pergunta seguinte.

Quando perguntei sobre quais assuntos as pessoas pesquisariam no Google ou YouTube relacionados a suco em pó, metade das respostas girou em torno de variações de uma mesma dúvida: “suco em pó faz mal?”, “efeitos do suco em pó para a saúde”, “malefícios do suco em pó”. Isso bate perfeitamente com o que os dados de busca no Google mostram, como vou detalhar a seguir.

O que ficou claro depois de analisar as respostas

  • As pessoas não confiam totalmente no produto, mas, quando compram, decidem mais pela praticidade do dia a dia do que por qualquer benefício de saúde.
  • Redes sociais e conteúdo em texto (blog) apareceram repetidamente quando perguntei em qual canal sentiam falta de informação sobre o produto.
  • Nas conversas mais abertas que tive (três pessoas em formato de entrevista), o YouTube surgiu como o canal ideal para falar tanto com crianças - via conteúdo infantil e desafios de vídeo curto - quanto com os pais, através de receitas e formas de uso.
  • Uma página de perguntas e respostas, desmistificando o senso comum sobre os componentes do suco, poderia aumentar bastante a confiança do consumidor.
  • Existe interesse real por receitas além do tradicional mousse de maracujá, tanto em blogs quanto em vídeos.

Os números de busca: marca forte, mas rodeada de insegurança

Depois da pesquisa qualitativa, fui a fundo nos números do Keyword Planner do Google Ads para entender o volume real de busca em quatro grandes grupos de termos: os relacionados diretamente à marca, os genéricos da categoria, os relacionados a receitas e os relacionados a possíveis malefícios à saúde.

Termos de marca (branded)

Termo pesquisado Buscas mensais médias
tang 18.100
promocaotang 12.100
promoçãotang 12.100
suco tang 8.100
tang promoções 2.400
suco tang faz mal 1.000
tang prepara o futuro 880
tang uva 590
refresco tang 480
tang laranja 480
tang morango 390
caixa de suco tang 390
tang limão 320
suco tang engorda 210
tang de morango 210
suco tang preço 210
tang abacaxi 210

Fonte: Keyword Planner, Google Ads.

Gráfico de barras horizontais com os 10 termos de marca Tang mais buscados
Os 10 termos de marca mais buscados mensalmente no Google.

Um detalhe que me chamou atenção nessa lista: mesmo entre os termos de marca, aparecem buscas como “suco tang faz mal” (1.000 buscas/mês) e “suco tang engorda” (210 buscas/mês). Ou seja, a desconfiança não é só sobre a categoria - ela persegue a marca especificamente, mesmo entre quem já a conhece bem.

Termos genéricos da categoria

Termo pesquisado Buscas mensais médias
suco em pó 3.600
suco em pó faz mal 880
suco de pó 720
marca de suco em pó 720
suco para criança 590
refresco em pó 480
detox verde em pó 390
suco de pozinho faz mal 390
suco infantil 390
suco detox em pó 320
suco de pacotinho 260
suco verde em pó 260
suco saquinho 210
suco em pó sem açúcar 170
suco de guaraná em pó 140
suco em pó de baunilha 140

Fonte: Keyword Planner, Google Ads.

Aqui reparei em algo interessante: termos como “detox verde em pó” e “suco detox em pó” aparecem com volume relevante dentro da categoria genérica, o que mostra um público adulto buscando praticidade com um viés de saúde, não necessariamente ligado ao consumo infantil.

Termos de receita

Termo pesquisado Buscas mensais médias
mousse de maracujá com suco em pó 1.300
mousse com suco em pó 880
mousse de suco em pó 590
mousse de maracujá simples com suco em pó 590
receita com suco em pó 320
mousse de limão com suco em pó 320
mousse com leite em pó e suco tang 260
mousse de leite em pó com tang 210
mousse de abacaxi com suco em pó 210
sorvete de suco em pó 140
sobremesa com leite em pó e suco 140
mousse de morango com suco em pó 140

Fonte: Keyword Planner, Google Ads.

Fica evidente que a receita mais tradicional - o mousse de maracujá - domina de forma isolada esse grupo, com 1.300 buscas mensais, quase o dobro da segunda colocada. Isso sugere que, apesar de existir espaço para receitas mais criativas, o hábito de consumo ainda gira fortemente em torno de uma única aplicação clássica.

Termos relacionados a “malefícios à saúde”

Termo pesquisado Buscas mensais médias
suco tang faz mal 1.000
suco em pó faz mal 880
suco de pozinho faz mal 390
suco tang faz mal para saúde 90
suco em pó faz mal para os rins 50
suco em pó faz mal para saúde 50
suco mid faz mal 40
pó de suco faz mal 30
suco em pó clight faz mal 30
refresco em pó faz mal 30
suco em pó fit faz mal 20
males do suco em pó 20
suco de pozinho faz mal para saúde 20
suco em pó tang faz mal 10

Fonte: Keyword Planner, Google Ads.

Esse grupo, isolado, tem menos volume que os outros, mas o dado importante não é o tamanho absoluto - é a recorrência do padrão “faz mal” em praticamente todas as variações de marca e categoria. Isso mostra uma insegurança estrutural que atravessa qualquer forma de busca sobre o produto.

Visão geral: onde está o volume de busca

Somando os quatro grupos, o panorama fica bem claro:

Categoria de termo Soma de buscas mensais médias
Termos de marca (Tang) 60.170
Termos genéricos 10.740
Termos de receita 5.590
Termos “faz mal / malefícios” 3.560
Gráfico de barras comparando o volume total de busca entre as quatro categorias
Comparativo do volume total de buscas mensais entre as quatro categorias analisadas.

O que esse total revela é que a força da marca é, de longe, o maior motor de tráfego de busca da categoria - mais de 60 mil buscas mensais médias, contra pouco mais de 10 mil dos termos genéricos. Isso é raro: normalmente, categorias de consumo têm o termo genérico como porta de entrada principal, mas aqui a marca virou sinônimo da própria categoria.


O que essa pesquisa me ensinou

Juntando os três tipos de dado - comportamento de busca no Google, volume de palavras-chave e respostas diretas de consumidores - chego a duas conclusões que considero as mais relevantes de todo o processo.

A primeira é que existe uma procura consistente por receitas que vão além das mais tradicionais, com as pessoas buscando substituir sabores mais concentrados por opções mais suaves e doces - um espaço de conteúdo que hoje está mal explorado pela própria marca e é ocupado por blogs de terceiros.

A segunda é que o interesse por versões “detox” e práticas do suco em pó tem uma sinergia direta com o que ouvi nas entrevistas: as pessoas recorrem a esse tipo de produto justamente nos momentos em que falta tempo para preparar algo mais natural, seja para elas mesmas ou para os filhos. A praticidade, não o benefício nutricional, é o verdadeiro gatilho de compra.

Se eu tivesse que resumir o achado central de toda essa pesquisa em uma frase, seria esta: a marca tem uma força de lembrança gigante, construída ao longo de décadas, mas essa força convive com uma desconfiança persistente sobre saúde que aparece em praticamente todo tipo de busca relacionada ao produto - e hoje, olhando só para os resultados de busca, ninguém do lado da marca está respondendo diretamente a essa dúvida. É exatamente esse tipo de lacuna entre o que as pessoas procuram e o que encontram que, para mim, mais vale a pena observar quando se estuda o comportamento de consumo pela lente dos dados de busca.