Há um tempo resolvi investigar como as pessoas realmente pesquisam, compram e pensam sobre suco em pó no Brasil - em especial sobre a marca mais lembrada dessa categoria, o Tang. Não fiz isso por curiosidade solta: queria entender de verdade a diferença entre o que uma marca acredita que o consumidor pensa e o que os dados de busca e uma pesquisa direta com pessoas reais mostram.
Cruzei três fontes para não depender de achismo: o volume médio de buscas mensais no Keyword Planner do Google Ads (considerando um período de 12 meses), os prints da página de resultados do Google (SERP) para os termos mais relevantes, e um formulário que enviei para uma amostra de pessoas - com e sem filhos - para validar hipóteses de comportamento. O resultado surpreendeu bastante, e resolvi compilar tudo aqui, com números, tabelas e gráficos, porque acho que vale a pena entender como funciona o “funil invisível” de busca em torno de um produto tão comum quanto o suco em pó.
O que aparece quando você pesquisa “suco em pó”
A primeira coisa que fiz foi simplesmente digitar “suco em pó” no Google e analisar o que aparecia na primeira página de resultados. O que encontrei foi revelador: nenhuma marca - nem o Tang, nem qualquer concorrente direto - aparece organicamente para esse termo genérico.
Em vez disso, a página de resultados se divide em quatro blocos bem distintos:
- Sites de e-commerce (Americanas, Carrefour, Mercado Livre, Tenda Atacado) vendendo o produto.
- Um conteúdo de um portal de saúde e bem-estar falando sobre os possíveis malefícios do consumo.
- Blogs de receitas ensinando a usar o suco em pó em doces e sobremesas.
- A caixa “As pessoas também perguntam”, cheia de dúvidas relacionadas ao produto.
Isso me mostrou algo importante: quando a busca é genérica, a marca simplesmente não está lá. Espaço que sites de conteúdo, blogs de receita e portais de saúde ocupam sem concorrência de quem fabrica o produto. Ou seja, existe uma lacuna enorme de conteúdo institucional que hoje é preenchida por terceiros - e não necessariamente com informação favorável à categoria.
A pesquisa que fiz com consumidores reais
Para não ficar só nos números de busca, criei um formulário e enviei para uma base variada de pessoas - com e sem filhos - durante um período de poucos dias. Recebi 25 respostas, e uma das primeiras perguntas foi simples: qual a primeira marca que vem à cabeça quando o assunto é suco em pó?
O resultado confirmou algo que os dados de busca já sugeriam: o Tang é a marca mais lembrada espontaneamente na categoria, muito mais do que o termo genérico “suco em pó”. Isso é o que se chama de “top of mind” - a marca virou praticamente sinônimo do produto, parecido com o que aconteceu com “Bombril” para esponja de aço ou “Danone” para iogurte.
Mas a lembrança de marca não significa consumo frequente. Ao filtrar apenas as pessoas que citaram o Tang espontaneamente (18 das 25 respostas), o quadro de hábito de consumo ficou assim:
| Comportamento de consumo | Nº de pessoas | % do grupo |
|---|---|---|
| Não consomem o produto | 10 | 56% |
| Consomem “de vez em quando” | 6 | 33% |
| Não consomem, mas compram para a família | 1 | 6% |
| Consomem com frequência | 1 | 6% |
O dado que mais me chamou atenção veio na sequência: dessas mesmas 18 pessoas, apenas uma disse acreditar que o suco contribui para o crescimento do filho - e, curiosamente, não foi a pessoa que consome o produto com frequência. Ou seja, existe lembrança forte de marca, mas quase nenhuma crença em benefício nutricional. As pessoas compram (quando compram) por outro motivo, que ficou claro na pergunta seguinte.
Quando perguntei sobre quais assuntos as pessoas pesquisariam no Google ou YouTube relacionados a suco em pó, metade das respostas girou em torno de variações de uma mesma dúvida: “suco em pó faz mal?”, “efeitos do suco em pó para a saúde”, “malefícios do suco em pó”. Isso bate perfeitamente com o que os dados de busca no Google mostram, como vou detalhar a seguir.
O que ficou claro depois de analisar as respostas
- As pessoas não confiam totalmente no produto, mas, quando compram, decidem mais pela praticidade do dia a dia do que por qualquer benefício de saúde.
- Redes sociais e conteúdo em texto (blog) apareceram repetidamente quando perguntei em qual canal sentiam falta de informação sobre o produto.
- Nas conversas mais abertas que tive (três pessoas em formato de entrevista), o YouTube surgiu como o canal ideal para falar tanto com crianças - via conteúdo infantil e desafios de vídeo curto - quanto com os pais, através de receitas e formas de uso.
- Uma página de perguntas e respostas, desmistificando o senso comum sobre os componentes do suco, poderia aumentar bastante a confiança do consumidor.
- Existe interesse real por receitas além do tradicional mousse de maracujá, tanto em blogs quanto em vídeos.
Os números de busca: marca forte, mas rodeada de insegurança
Depois da pesquisa qualitativa, fui a fundo nos números do Keyword Planner do Google Ads para entender o volume real de busca em quatro grandes grupos de termos: os relacionados diretamente à marca, os genéricos da categoria, os relacionados a receitas e os relacionados a possíveis malefícios à saúde.
Termos de marca (branded)
| Termo pesquisado | Buscas mensais médias |
|---|---|
| tang | 18.100 |
| promocaotang | 12.100 |
| promoçãotang | 12.100 |
| suco tang | 8.100 |
| tang promoções | 2.400 |
| suco tang faz mal | 1.000 |
| tang prepara o futuro | 880 |
| tang uva | 590 |
| refresco tang | 480 |
| tang laranja | 480 |
| tang morango | 390 |
| caixa de suco tang | 390 |
| tang limão | 320 |
| suco tang engorda | 210 |
| tang de morango | 210 |
| suco tang preço | 210 |
| tang abacaxi | 210 |
Fonte: Keyword Planner, Google Ads.
Um detalhe que me chamou atenção nessa lista: mesmo entre os termos de marca, aparecem buscas como “suco tang faz mal” (1.000 buscas/mês) e “suco tang engorda” (210 buscas/mês). Ou seja, a desconfiança não é só sobre a categoria - ela persegue a marca especificamente, mesmo entre quem já a conhece bem.
Termos genéricos da categoria
| Termo pesquisado | Buscas mensais médias |
|---|---|
| suco em pó | 3.600 |
| suco em pó faz mal | 880 |
| suco de pó | 720 |
| marca de suco em pó | 720 |
| suco para criança | 590 |
| refresco em pó | 480 |
| detox verde em pó | 390 |
| suco de pozinho faz mal | 390 |
| suco infantil | 390 |
| suco detox em pó | 320 |
| suco de pacotinho | 260 |
| suco verde em pó | 260 |
| suco saquinho | 210 |
| suco em pó sem açúcar | 170 |
| suco de guaraná em pó | 140 |
| suco em pó de baunilha | 140 |
Fonte: Keyword Planner, Google Ads.
Aqui reparei em algo interessante: termos como “detox verde em pó” e “suco detox em pó” aparecem com volume relevante dentro da categoria genérica, o que mostra um público adulto buscando praticidade com um viés de saúde, não necessariamente ligado ao consumo infantil.
Termos de receita
| Termo pesquisado | Buscas mensais médias |
|---|---|
| mousse de maracujá com suco em pó | 1.300 |
| mousse com suco em pó | 880 |
| mousse de suco em pó | 590 |
| mousse de maracujá simples com suco em pó | 590 |
| receita com suco em pó | 320 |
| mousse de limão com suco em pó | 320 |
| mousse com leite em pó e suco tang | 260 |
| mousse de leite em pó com tang | 210 |
| mousse de abacaxi com suco em pó | 210 |
| sorvete de suco em pó | 140 |
| sobremesa com leite em pó e suco | 140 |
| mousse de morango com suco em pó | 140 |
Fonte: Keyword Planner, Google Ads.
Fica evidente que a receita mais tradicional - o mousse de maracujá - domina de forma isolada esse grupo, com 1.300 buscas mensais, quase o dobro da segunda colocada. Isso sugere que, apesar de existir espaço para receitas mais criativas, o hábito de consumo ainda gira fortemente em torno de uma única aplicação clássica.
Termos relacionados a “malefícios à saúde”
| Termo pesquisado | Buscas mensais médias |
|---|---|
| suco tang faz mal | 1.000 |
| suco em pó faz mal | 880 |
| suco de pozinho faz mal | 390 |
| suco tang faz mal para saúde | 90 |
| suco em pó faz mal para os rins | 50 |
| suco em pó faz mal para saúde | 50 |
| suco mid faz mal | 40 |
| pó de suco faz mal | 30 |
| suco em pó clight faz mal | 30 |
| refresco em pó faz mal | 30 |
| suco em pó fit faz mal | 20 |
| males do suco em pó | 20 |
| suco de pozinho faz mal para saúde | 20 |
| suco em pó tang faz mal | 10 |
Fonte: Keyword Planner, Google Ads.
Esse grupo, isolado, tem menos volume que os outros, mas o dado importante não é o tamanho absoluto - é a recorrência do padrão “faz mal” em praticamente todas as variações de marca e categoria. Isso mostra uma insegurança estrutural que atravessa qualquer forma de busca sobre o produto.
Visão geral: onde está o volume de busca
Somando os quatro grupos, o panorama fica bem claro:
| Categoria de termo | Soma de buscas mensais médias |
|---|---|
| Termos de marca (Tang) | 60.170 |
| Termos genéricos | 10.740 |
| Termos de receita | 5.590 |
| Termos “faz mal / malefícios” | 3.560 |
O que esse total revela é que a força da marca é, de longe, o maior motor de tráfego de busca da categoria - mais de 60 mil buscas mensais médias, contra pouco mais de 10 mil dos termos genéricos. Isso é raro: normalmente, categorias de consumo têm o termo genérico como porta de entrada principal, mas aqui a marca virou sinônimo da própria categoria.
O que essa pesquisa me ensinou
Juntando os três tipos de dado - comportamento de busca no Google, volume de palavras-chave e respostas diretas de consumidores - chego a duas conclusões que considero as mais relevantes de todo o processo.
A primeira é que existe uma procura consistente por receitas que vão além das mais tradicionais, com as pessoas buscando substituir sabores mais concentrados por opções mais suaves e doces - um espaço de conteúdo que hoje está mal explorado pela própria marca e é ocupado por blogs de terceiros.
A segunda é que o interesse por versões “detox” e práticas do suco em pó tem uma sinergia direta com o que ouvi nas entrevistas: as pessoas recorrem a esse tipo de produto justamente nos momentos em que falta tempo para preparar algo mais natural, seja para elas mesmas ou para os filhos. A praticidade, não o benefício nutricional, é o verdadeiro gatilho de compra.
Se eu tivesse que resumir o achado central de toda essa pesquisa em uma frase, seria esta: a marca tem uma força de lembrança gigante, construída ao longo de décadas, mas essa força convive com uma desconfiança persistente sobre saúde que aparece em praticamente todo tipo de busca relacionada ao produto - e hoje, olhando só para os resultados de busca, ninguém do lado da marca está respondendo diretamente a essa dúvida. É exatamente esse tipo de lacuna entre o que as pessoas procuram e o que encontram que, para mim, mais vale a pena observar quando se estuda o comportamento de consumo pela lente dos dados de busca.